Contagem regressiva

Interação - Atualizado 19-07-2013

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O estuprador -  Dália Nidia de Barros Baptista



Antes de dar a partida, o delegado acendeu o cigarro e aspirou a fumaça com volúpia. Com alguns movimentos circulares dos ombros, tentou livrar-se da tensão acumulada nos músculos do pescoço.
- Eta, tardezinha comprida! - resmungou.
Dirigiu cuidadosamente para casa. Não se apressava, embora soubesse que sua filha estava sozinha e, certamente preocupada. Precisa recapitular cada detalhe daquele caso...
Desde o momento em que a voz do cabo Nelson soou como um sino de aleluia na sua sala acanhada e poeirenta ("Chefe! Pegamos o filho da ****!), e uma figura patética entrou, tocada aos empurrões.
Curioso: quanto maior o nível de periculosidade, mais insignificante parecia o elemento. Aquele era baixinho, embora troncudo, uma palidez agravada pela barba de três dias. Parecia muito assustado. Afonso, o delegado, olhou-o demoradamente, sem falar nada, notando as algemas, a cmiseta suja, o suor escorrendo pelo rosto. Enganado pelo silêncio da autoridade, o bandido tentou argumentar: "Excelência... Deve haver algum engano..."
- Calado! - berrou Afonso. - Guarde suas forças para mais tarde, valentão! Depois que você confessar suas maldades, te entregarei aos tubarões famintos que te aguardam. Os teus gritos serão música para meus ouvidos.
À medida que revivia as cenas, seu corpo era percorrido por frêmitos de puro gozo. Primeiro, fez o homem confessar os estupros com riqueza de pormenores. Onze jovens atacadas, sete das quais mortas no ato do estupro e duas mais tarde. Todas brutalizadas cruelmente. O homem chorava, babava, se arrastava, implorando por um tiro de misericórdia.
Finalmente, a ordem fria do delegado:
- Recolham ao xadrez!
E ficou lá, escutando, sentindo um prazer enorme no que ouvia, ele que geralmente detestava violência.
Guardando o carro na garagem, Afonso entrou em casa, onde encontrou a filha cochilando na frente da televisão.
- Cheguei! - anunciou carinhosamente.
- Paizinho!
A menina pulou do sofá, deu-lhe um beijo e murmurou:
- É tarde...
- É, querida, hoje foi um dia daqueles. Vai esquentando a janta enquanto tomo um banho rápido.
Quando voltou, encontrou a menina de pé, perto da mesa, onde fumegavam as panelas. Um prato apenas.
Olhou a filha.
- Eram mais de nove horas, jantei - Desculpou-se ela.
- Ok - resmungou enquanto se servia - Mas sua mãe não faria isso, você sabe...
Constrangida, a menina baixou os olhos.
- Desculpe - murmurou - Da próxima vez eu espero.
Isso - incentivou o pai, com carinho - Agora que sua mãe nos deixou, você tem que substituí-la. Já está bem, mas pode ficar melhor - sorriu, enquanto mastigava prazerosamente - Você agora é minha mulherzinha!
- Sim, pai - concordou a filha.
Cibele era uma garota de onze anos, franzina, seios mal despontando, olhos grandes e assustados, talvez pela responsabilidade que desabara sobre seus ombros frágeis.
Gestos tímidos, atitude de quem quer agradar. Mantinha-se servilmente de pé, atenta às ordens do pai. Ele falava do seu dia difícil, do terrível estuprador capturado, não poupando detalhes, nem os mais escabrosos, indiferente à expressão apavorada da menina. Quando acabou de comer, recostou-se na cadeira e acendeu um cigarro. Cibele correu para tirar o prato e servir o café, bem amargo, como o pai gostava.
- E depois, paizinho? - perguntou educadamente - Sabia que seu pai não a pouparia do final, que ele sempre recapitulava com prazer, mas substituir sua mãe significava também escutar seus desabafos.
No fundo, esperava que seu pai esticasse bastante o assunto, pois isso retardaria momentos piores. Finalmente, o pai levantou-se da mesa, serviu-se de uma dose generosa de conhaque e sentou-se em frente à televisão.
Era o sinal para Cibele correr para a cozinha e lavar os pratos e panelas. Depois sentou-se ao lado do pai, e, aproveitando o intervalo comercial, rogou:
- Painho, será que eu posso ir à escola amanhã? Prometo deixar tudo em ordem por aqui...
Sabia que o pai gostava que o chamasse de painho, era assim que sua mãe o chamava nos momentos de carinho. Mas desta vez, ele não cedeu.
- Você sabe a minha resposta, minha querida... Por enquanto, nada de escola. Você não pode abandonar seu pai, minha princesinha. Você não gosta do painho, quer me abandonar também?
- Não, painho, eu quero cuidar de você, mas posso fazer as duas coisas. Preciso estudar...
- Não florzinha, você já sabe tudo que precisa saber! Nada de escola, nada de coleguinhas, namoricos, confidências... Você agora é a mulherzinha do papai.
A menina baixou a cabeça, vencida, apertando os maxilares, evitando chorar.
- Posso ir dormir? - perguntou daí a pouco, num fio de voz.
O pai não respondeu, apenas aproximou o rosto, olhou-a nos olhos e deu uma risadinha. Cibele sentiu o cheiro de conhaque e tentou fugir. O pai abraçou a menina, cobriu de beijos pela cabecinha de cabelos escorridos e sem graça.
- Oh, minha lindinha do pai... Como aqueles monstros têm coragem de maltratar meninas? Pensar que a minha filhinha podia cair nas mãos de um louco desses! Uma menininha meiga, frágil... Uma pombinha como você apenas merece carinho, respeito e amor.
O delegado ouvia de novo os gritos de agonia do estuprador, enquanto sentia na carne o mesmo tratamento que infligira às suas vítimas. Excitado, apertou mais o corpinho da filha.
- Pai - suplicou - Por favor...
- Calma, minha florzinha, só estava pensando naquele canalha de hoje. Como podia ele brutalizar meninas doces como você... Agora vamos dormir, é tarde. Vá abrindo a minha cama.
Cibele se apressou a obedecer, mas o pai a seguiu tão rapidamente que não teve tempo de sair do quarto. Fitou o pai com um desespero de um animalzinho acuado.
- Pai! - implorou - Deixe dormir no meu quarto...
- O seu quarto agora é aqui - a voz de Afonso era doce. Carinhosamente, limpou as lágrimas que corriam pelo rostinho aflito.
- Não tenha medo, meu amorzinho. O painho trouxe um remédio. Prometo que hoje não vai doer nada. Juro, minha mulherzinha!
Mais tarde, ainda abraçando a menina, suspirou:
- Que loucos. Como podem maltratar um serzinho frágil que só deve ser tratado com amor e carinho!
Mais uma vez passou suavemente a mão pela cabeça da menina, que, depois do estupro, adormecera chorando.

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Eloquência
Edson Macedo

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Do favo de mel à doçura do seu olhar!
Doce engodo que leva-me a meu idílio!
Arranca da minha alma, solta ao exílio
Como nômade, pensamentos a vagar!

Olho-te, vejo-te! Quão distante estou!
Vôo como vento, em pensamentos loucos
Embriago-me de amor, desfaleço aos poucos
Nessa aventura, que meus sonhos deixou!

Andar de pantera, ardente no cio
Cabelos soltos, como leque de plumas
Potra selvagem, com uma audácia sutil
Doce, serena! Como manhãs em brumas!

Etérea como Vênus no Olimpo
Seu perfume como néctar, sedução!
Levando-me ao êxtase de meus desejos
Adormecendo-me, a sombra de seu vulcão!!!

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O homem menino
Maria José Federighi Nisgoski


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José Vasconcellos
Um exemplo de vida
Sempre lépido e fagueiro,
Nada o intimida.

Parece que para ele,
Tudo está começando agora,
Sua alegria é contagiante
E ele a espalha mundo afora.

Provocar lágrimas é fácil
Qualquer um consegue isso
Mas fazer rir, é uma arte
E ele é artista nisso.

José alegra gerações
Com piadas bem contadas
E sabe como ninguém,
Transforma-las em risadas.

Ele esbanja cultura
E alegria por onde passa,
É uma fonte inesgotável
De conhecimentos, talento e raça.

Sentimo-nos privilegiados
Por ele morar em nossa cidade.
Itatiba hospeda com orgulho,
Tão ilustre personalidade!

Esta poesia é uma pequena e singela homenagem ao senhor José Vasconcelos. Entreguei a ele durante uma entrevista no Programa “ Gente de Sucesso “ daTV Itatiba, no  mês de julho de 2004.
Que ele descanse em paz  em sua nova Morada!
Maria José Federighi Nisgoski

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